segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Minisséries


  Apesar do grande sucesso das séries, entrando de vez nos nossos cotidianos, as minisséries não recebem a mesma atenção. Sendo capaz de explorar os personagens e as situações pela quantidade de episódio, mas também oferecendo uma estrutura bem estabelecida de começo, meio e fim; as minisséries unem as melhores características do cinema e da TV.

The Night of


  Do mesmo criador de "The Wire", essa minissérie da HBO é tensão pura do começo ao fim. Nasir Khan (Riz Ahmed), um estudante universitário de origem paquistanesa, é acusado de assassinar uma garota privilegiada e o inconvencional advogado John Stone (John Turturro) fica responsável por defendê-lo. Com uma estrutura de drama criminal típica, a série tem um mistério muito bem executado, ótimas atuações- Ahmed consegue transitar da ingenuidade do seu personagem no começo para uma versão mais endurecida no final com muita naturalidade- direção e roteiro, prendendo a atenção do espectador todo o tempo e apresentando uma fotografia em tons frios impactante. James Gandolfini iria produzir o projeto e ainda ganhou um crédito póstumo; além disso, a série conseguiu um impressionante 95% de aprovação do site Rotten Tomatoes, que reúne críticas especializadas.


And then there were none

  
  Adaptação do livro de Agatha Christie, esta série da BBC conta em apenas três episódios a misteriosa história de um grupo de pessoas que são convidadas a visitar uma ilha; ao chegarem, não têm nenhum sinal dos anfitriões, apenas dois empregados recém-contratados para recebê-los. 


Guerra e Paz


  Adaptado do grande clássico do escritor russo Liev Tolstói, "Guerra e Paz" não é a primeira adaptação deste romance. Com todo o esmero que a BBC pode oferecer para um drama de época, essa adaptação aproveita bem seus seis episódios para contar a fundo um romance de Tolstói e seus muitos detalhes. São histórias de personagens diversos da aristocracia russa relacionadas entre si e afetadas pela guerra; Lily James, Paul Dano e Gillian Anderson estão no elenco.


The Night Manager


  Mais uma adaptação de um clássico literário pela BBC, desta vez em coprodução com a AMC, "The Night Manager" teve todos os seus episódios dirigidos pela diretora dinamarquesa Susanne Bier. A história de espionagem inspirada no livro de John Le Carré conta a trama de um espião infiltrado nas operações de um grande negociador de armas; no entanto, a minissérie deu um toque moderno situando a história logo após as revoltas da Primavera Árabe. Um grande destaque é a direção de Bier, com closes estratégicos e expressivos, o que se passa com cada personagem é expresso pelos seus olhares e gestos; as ótimas atuações de Tom Hiddleston, Hugh Laurie e Olivia Colman também ajudam a atingir isto, além de contar com locações estonteantes. A diretora teve seu trabalho na minissérie reconhecido com um Emmy na categoria de direção este ano.

                                              

Show Me a Hero


  "Me mostre um herói e eu te escrevo uma tragédia", com esta frase de F. Scott Fitzgerald, a minissérie cujo título se inspira nesta citação inicia seu primeiro episódio. Contando a história real de Nicholas Wasicsko, o prefeito mais jovem a ser eleito na cidade de Yonkers, em Nova York, que precisa lidar com um grande problema herdado do governo anterior- uma lei de construção de moradias para a população mais carente, predominantemente negra e latina, em um bairro de classe média. A lei está sendo obrigada a ser aprovada pelo poder judiciário a contragosto da população, colocando Wasicsko em uma posição difícil. A atuação de Oscar Isaac como o personagem principal é essencial para esta minissérie que traz um problema muito atual de desigualdade social e exclusão de grupos minoritários. Catherine Keener, Alfred Molina e Winona Ryder também estão no elenco.


Wolf Hall



  Para quem adoro um drama histórico, "Wolf Hall" é ideal. Ela retrata a ascensão de Thomas Cromwell como conselheiro do rei e seu envolvimento no desfecho do casamento de Henrique VIII e Ana Bolena. Porém, nem tudo é factual, a minissérie se baseia nos livros da autora Hilary Mantel, que ficcionaliza documentos históricos. Mesmo assim, dá um interessante insight de um dos melhores enredos históricos. Mark Rylance faz ótima performance como Cromwell com sua sutileza característica, capaz de transmitir as nuances e ambiguidades do seu personagem, em um dos trabalhos que colocou sua carreira em ascensão no cinema após muitos anos como um dos mais elogiados atores da cena teatral inglesa. Damian Lewis como Henrique VIII e Claire Foy como Ana Bolena também oferecem performances excepcionais, Foy inclusive interpretará uma rainha novamente na série da Netflix sobre Elizabeth II entitulada "The Crown", ainda para estrear. A minissérie foi muito aclamada, tendo sido indicada a vários prêmios Emmy e vencido o Globo de Ouro.


The People vs. O.J. Simpson - American Crime Story



  20 anos após o que foi chamado então de "o julgamento do século", o controverso julgamento do atleta O.J. Simpson é recontado nesta minissérie de Ryan Murphy. Com o planejamento de criar uma nova série antológica, Murphy escolhe como tema da primeira temporada um drama de tribunal que envolve questões de racismo e machismo. A ex-esposa do atleta, Nicole Simpson, e seu amigo, Ron Goldman, foram encontrados mortos na casa dela e todas as evidências apontam para O.J., mas sua equipe estelar de advogados vai tentar provar o contrário. O caso foi extremamente midiatizado e questões como racismo na polícia e violência doméstica, assuntos bastante atuais, estavam na pauta; o julgamento real foi todo televisionado e os vídeos podem ser encontrados no YouTube. Voltando a adaptação televisa, o caso por si só dá uma boa história e a série com muita eficiência explorou todas as nuances do caso- as pessoas afetadas, o trabalho dos advogados e suas questões éticas. Além de ter atuações fenomenais de quase todo o elenco- Sarah Paulson, Courtney B. Vance, Sterling K. Brown, Cuba Gooding Jr.- vários que incusive foram premiados com um Emmy este ano, que aliás, reconheceu a minissérie na maioria das suas categorias. 


                                            

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Filmes nacionais


  Apesar de menos conhecidos, a qualidade dos filmes nacionais não deixa nada a desejar em relação aos filmes estrangeiros. Mesmo com muitas dificuldades em produção e distribuição, vários filmes conseguem se destacar criticamente e chegar ao conhecimento de uma grande quantidade de espectadores, às vezes, ultrapassando barreiras e ganhando prestígio internacional. 

Cidade de Deus


  Codirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, "Cidade de Deus" foi lançado em 2002 no Festival de Cannes e em agosto nos cinemas nacionais. Baseado no livro homônimo de Paulo Lins, o filme conta o surgimento do crime organizado na Cidade de Deus nos anos 70 e 80. O filme apresenta atores não profissionais de comunidades do Rio de Janeiro devido à intenção de Meirelles e Lund dos personagens parecerem mais reais. Um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro, ele tem figurado em várias listas de melhores filmes de todos os tempos e melhores filmes de ação, incluindo das revistas Time, Empire e do jornal The Guardian, devido à sua narrativa inovadora e personagens marcantes.


Boi Neon


  Dirigido por Gabriel Mascaro, "Boi Neon" é um dos expoentes do frutífero cinema pernambucano. Estrelado por Juliano Cazarré, o filme narra a história de um vaqueiro que almeja trabalhar confeccionando roupa. A atuação de Cazarré impressiona nessa interessante e inusitada história, que também apresenta uma visão dos nordestinos menos estereotipada e mais realista da qual nós nos acostumamos a ver.



O Lobo Atrás da Porta


  Baseado no caso policial "A Fera da Penha", o filme conta a história de um triângulo amoroso com consequências trágicas. Com Leandra Leal no papel principal, o filme captura sua atenção e no final tira o seu fôlego, Leal apresenta ótima performance assim como o resto do elenco principal composto por Milhem Cortaz e Fabíula Nascimento.


Bicho de Sete Cabeças


  Um dos primeiros filmes de destaque de Rodrigo Santoro, "Bicho de Sete Cabeças" é baseado nas memórias de Austregésilo Carrano Bueno; o personagem Neto (Santoro) é internado em um hospital psiquiátrico pelo seu pai após ele ter descoberto um cigarro de maconha no casaco do filho. O filme explora os abusos das instituições psiquiátricas e a relação entre pai e filho.


Carandiru


  "Carandiru" conta a famosa história do massacre no presídio de mesmo nome; baseado no livro de Dráuzio Varella, que conviveu com os presidiários, o filme retrata os presos e suas histórias. Dirigido por Hector Babenco, o filme dá outra perspectiva ao caso trazendo dignidade às suas vítimas. Grande parte do elenco é familiar ao público: Milton Gonçalves, Ailton Graça, Wagner Moura, Rodrigo Santoro, Lázaro Ramos e Caio Blat são alguns nomes.


Hoje eu quero voltar sozinho



  Seguindo o sucesso do curta "Eu não quero voltar sozinho", "Hoje eu não quero voltar sozinho" desenvolve outra narrativa com os mesmos personagens do curta; Leonardo, um estudante cego, que tem sua rotina afetada pela chegada do novo aluno, Gabriel, provocando ciúmes em sua melhor amiga, Giovana. O filme é reconhecido como um dos primeiros de destaque no Brasil a tratar de um relacionamento homoafetivo, tendo sido indicado a um prêmio GLAAD, que reconhece as representações de homossexuais na mídia.



Tatuagem



  Outro filme de destaque do cinema pernambucano dos últimos anos, "Tatuagem", dirigido por Hilton Lacerda, apresenta a história de um grupo de artista provocador durante a ditadura militar; nele, o líder da trupe, Clécio Wanderley (Irandhir Santos), conhece o jovem soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) proporcionando um encontro de duas realidades bastante distintas.


Aquarius



  Maior filme brasileiro lançado este ano, "Aquarius" foi lançado no Festival de Cannes e concorreu à Palma de Ouro. Tendo se destacado em vários outros festivais, o filme dirigido por Kléber Mendonça Filho- que contou com performance elogiadíssima de Sônia Braga- retrata o assédio sofrido por uma viúva para vender seu apartamento a uma construtora. A sensibilidade, profunda investigação de seus personagens e qualidade técnica já colocam "Aquarius" entre os melhores filmes do cinema brasileiro.



O Pagador de Promessas



  Lançado em 1962, o filme de Anselmo Duarte é até então o único filme brasileiro a vencer um prêmio Palma de Ouro de Cannes. Ele conta a emocionante história de Zé do Burro (Leonardo Villar), um homem tentando cumprir uma promessa feita em um terreiro de candomblé, mas encontrando resistência por parte da Igreja. Baseado na peça homônima de Dias Gomes, a história é muito tocante e tem personagens que ressonam nos dias atuais. O elenco também apresenta uma jovem Glória Menezes e Norma Bengell.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Sicário" de Denis Villeneuve


  O nome do diretor canadense Denis Villeneuve pode ainda não soar muito familiar, mas seu trabalho tem se destacado nos últimos anos com os ótimos "Polytechnique", "Incêndios", "Os Suspeitos", "O Homem Duplicado" e o filme tema deste texto, "Sicário - Terra de ninguém". A carreira de Villeneuve ganhou destaque internacional com "Incêndios", muito premiado mundo a fora, possibilitando que os seus projetos seguintes atingissem um público mais abrangedor. Um dos seus filmes mais bem-sucedidos nessa nova fase é "Sicário", lançado ano passado no Festival de Cannes e no final do ano, aqui no Brasil, em poucas salas.
  Estrelado por Emily Blunt, Josh Brolin e Benicio Del Toro, o filme narra a procura pelo chefe de um grande cartel de drogas do México por uma força-tarefa supervisionada pela CIA. A personagem principal, interpretada por Blunt, é indicada para fazer parte deste grupo; porém, as táticas dos seus novos colegas de trabalho a deixam inquieta.


  Não é um típico filme de guerra contra as drogas, pois muito se foca no trabalho dos policiais e na personagem de Blunt, Kate Macer, uma agente do FBI com um histórico exemplar; ela é determinada em atingir suas metas e obedece a todas as regras da profissão. O que se choca com o jeito desleixado de Matt Graver (Brolin) e do misterioso Alejandro Gillick (Del Toro). Na primeira cena em que Macer vê Graver, ela percebe os chinelos nos pés dele em contradição aos homens de terno da mesma sala, durante uma reunião. Um pequeno detalhe, mas um que passa muita informação ao espectador sobre quem são esses personagens e como vai ser a interação entre eles. Gillick, entretanto, provoca Macer por ela simplesmente não saber para quem ele trabalha e porque está lá; apesar dos seus constantes questionamentos sobre este e outros detalhes estranhos da operação, Macer nunca recebe a explicação certa sobre o que está sendo feito, tendo que descobrir tudo sozinha.


  Essas dúvidas causam uma grande tensão, pois nem a personagem principal nem o espectador tem ideia do que acontecerá em seguida. No primeiro dia da agente, ela é levada ao México, lugar onde ela não sabia que iria, e esta primeira viagem já proporciona uma das cenas mais marcantes do filme. Em um engarrafamento, o esquadrão percebe estar rodeado por sicários- algo como um assassino de aluguel- do cartel, o que gera um tiroteio no meio trânsito. Os momentos antes do tiroteio começar trazem um nervosismo ao filme, apesar dos personagens simplesmente estarem parados em um engarrafamento; um trunfo da direção de Villeneuve. Essa enorme tensão retornará no clímax do filme, seguido por um desfecho surpreendente.
  Todos os atores do filme entregam ótimas atuações, até Jon Bernthal, que faz uma pequena participação. Mas o grande destaque é a atuação de Blunt; com o seu rosto expressivo, ela transmite com muita eficiência quem é a sua personagem e as razões de suas ações. Além do mais, Kate Macer é o tipo de personagem feminina que faz falta na maioria dos filmes, uma mulher em uma profissão tradicionalmente masculina, que se destaca pelo seu trabalho, não é vaidosa- ela passo grande parte do filme usando as mesmas roupas- e se importa muito com a sua profissão. Mesmo assim, ela não é masculinizada, essas características não ficam forçadas em sua personalidade como se não pudesse ser natural para uma mulher ser todas essas coisas. O filme mostra ser possível uma mulher ser forte, obstinada e não ter características "femininas", sem que isso a torne máscula.


  Além disso, a fotografia do filme se destaca bastante, o cenário desértico das locações no México e nos estados americanos vizinhos é muito bonito. As cores quentes funcionam bem, intercaladas por tons de azul nas cenas em que o sol está se pondo. O responsável por este belo trabalho é Roger Deakins, que também trabalhou na fotografia de "Onde os fracos não tem vez", "O Leitor" e "007- Skyfall". E a fotografia não é o único elemento técnico marcante, a trilha sonora composta por Jóhann Jóhannsson é muito intensa, sendo a música responsável por trazer grande parte da tensão do filme.



  "Sicário- Terra de ninguém" é um filme com uma pegada mais artística, mas com temas e cenas de ação de produções mais mainstream, e que como todo bom filme, tem uma boa história sendo bem executada. Um grande trabalho de Denis Villeneuve, um nome para se prestar atenção de agora em diante.