quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Dançando até o topo (Parte 1)



 Na chamada Era de Ouro de Hollywood muitos musicais eram feitos e mesmo nos filmes que não fossem musicais, um número de dança não era estranho. Assim, muitas estrelas de cinema conseguiram se destacar no showbiz pelas suas habilidades como dançarinos. Mesmo após o enfraquecimento dos estúdios e uma quantidade consideravelmente menor de musicais sendo feitos, muitos atores dão seus primeiros passos para uma carreira no cinema pela dança.

Joan Crawford


  Joan, nascida com o nome de Lucille LeSueur, foi descoberta por um produtor em Detroit onde ela se apresentava na década de 20 e ele a colocou no grupo de dançarinas do seu show na Broadway. Pouco tempo depois, a atriz e dançarina fez um teste com um produtor de Hollywood e assinou o seu primeiro contrato com a MGM. Após seus primeiros filmes, ouviu a recomendação que deveria mudar de nome, seu nome parecia "inventado", apesar de ser seu nome verdadeiro (ela ainda chegou a ser creditada pelo seu nome de nascença em suas primeiras aparições em filmes). Frustrada com os papéis pequenos que era dada, Joan começou a se expor em Hollywood visando se promover, e suas habilidades como dançarina foram o que atraiu atenção mais uma vez- ela participou e ganhou muitas competições de dança da noite hollywoodiana. Ela alcançou o seu objetivo e conseguiu papéis de maior destaque nas produções seguintes em que participou; nesses filmes, Joan passou a encorporar a "flapper"- como eram chamadas as garotas da década de 20 que viviam de forma não convencional, vestindo roupas curtas e saindo para beber e dançar- estilo de vida que se destacava junto com a ascensão do jazz, e no caso de Joan, assim como no de Clara Bow e de outras atrizes da época, isso lhe trouxe muita popularidade, principalmente entre o público feminino. Esse tipo de personagem deu a Joan a oportunidade de aparecer em muitos números de dança nos seus primeiros filmes de sucesso. Joan não continuaria dançando muito durante em seus filmes, a sua carreira evoluiu para um caminho mais "sério", ela se tornou um sex symbol e depois uma atriz respeitada, mas este ícone do cinema deu seus primeiros passos em Hollywood pela dança.



Ginger Rogers


  "Minha mãe me disse que eu dançava antes de nascer. Ela sentia os meus dedos dos pés sapateando intensamente dentro dela por meses." Romantizou Virginia McMath, ou como você talvez a conheça, Ginger Rogers. A atriz começou a dançar e cantar muito jovem e entrou na cena do vaudeville (gênero teatral com muita música e dança) ainda adolescente. Enquanto fazia turnê com o seu número de vaudeville, Ginger começou a conseguir trabalhos em Nova York, o que a levou à Broadway- fazendo sua estréia no Natal de 1929 com o musical "Top Speed". Apenas algumas semanas depois da sua estréia, Ginger entrou no elenco do musical "Girl Crazy" de George Gershwin e Ira Gershwin; com esse segundo trabalho no teatro musical, ela ganhou fama na Broadway aos 19 anos de idade. Nos anos seguintes, Ginger começou a aparecer em filmes e em 1933 fez seu primeiro filme musical com Fred Astaire, inaugurando uma parceria que iria durar pelo resto década e resultar em filmes de grande popularidade.  "Fred e Ginger" tinham números de dança complicados e cheios de elegância, cantando canções originais feitos pelos compositores mais populares da época em um mundo de glamour e sonho criado nos filmes para um público americano que passava pela Grande Depressão- começada em 1929 e se alastrando pelá década de 30. Fred Astaire teve outras parceiras de dança em seus filmes, principalmente após Ginger ter começado  a focar em filmes de  drama e comédias, mas a sua parceria com Ginger continua sendo a mais famosa, também tendo sido considerada pelo próprio Astaire como sua parceira predileta. Sobre os dois, a atriz disse: "Eu faço tudo que o homem faz, só que para trás e de salto alto!" Com o reconhecimento que Astaire tem hoje, Ginger pode parecer meio delirante dizendo isso, mas na verdade, ela nunca ganhou o devido reconhecimento pelo trabalho que fez nos musicais com o famoso dançarino. Ela tinha que acompanhar as coreografias de Astaire sendo bem menos experiente, dançar com salto- que era a norma- e vestindo vestidos longos e pesados feitos para ficarem bonitos na tela, e não para dança profissional. Ginger Rogers não apenas ganhou espaço pela dança, mas fez uma de suas grandes marcas no cinema com ela.





Rita Hayworth


  Rita Hayworth é mais lembrada hoje como Gilda no filme noir de mesmo nome, muito também devido à referência a esse papel em "Um Sonho de Liberdade" (1994). Mas ela também foi uma das parceiras mais sublimes de Fred Astaire em filmes musicais, graças a sua extensa experiência com dança anterior à sua carreira no cinema. O pai de Rita, Eduardo Cansino, era um coreógrafo espanhol, e a atriz começa a ter aulas de dança aos três anos de idade, começou a se apresentar em público aos seis anos e virou parceira de dança do seu pai em apresentações em cassinos aos 12 anos. Foi vista dançando com o seu pai por um produtor de Hollywood e conseguiu um contrato com a Fox, suas primeiras aparições em filmes: dançando ou interpretando dançarinas. Depois vieram pequenos papéis com falas e os produtores do estúdio ganharam interesse em torná-la uma estrela, apagaram os seus traços hispânicos- que a deixava apenas os papéis de personagens "exóticas"- mudando o seu nome de Rita Cansino para Rita Hayworth e pintando seu cabelo moreno de vermelho escuro. Assim é conhecida hoje a atriz das femme fatales dos filmes noir que nasceu com o nome Margarita Carmen Cansino e dançava o bolero. 



Fred Astaire


  Falar de dança no cinema é quase o mesmo que falar em Fred Astaire, o mais famoso e produtivo dançarino das telonas era acima de tudo isso- um dançarino- mais do que um ator ou cantor. Fred começou a ter aulas de dança ainda criança- contra a sua vontade- devido à ambição de sua mãe de tornar ele e sua irmã estrelas do vaudeville (onde números com irmãos eram populares). Fred e sua irmã, Adele, conseguiram sucesso ainda crianças e continuaram dançando juntos até a vida adulta, aparecendo em produções na Broadway e em Londres. Quando a irmã Astaire se casa, Fred fica sem parceira, o que teve um grande impacto nele; assim, ele passa a expandir seus horizontes e a fazer testes para os estúdios de Hollywood após muitos anos de carreira no palco e de ter até sido considerado o melhor sapateador do mundo.  Talvez pela sua aparência, por não ser muito jovem ou por não ter grandes habilidades com atuação, Fred não conquistou os produtores de Hollywood imediatamente, mas o seu talento com a dança provou um charme que depois foi reconhecido como irresistível para as câmeras e em 1933 ele teve sua estréia no cinema em "O Turbilhão da Dança ", com Joan Crawford. Naquele mesmo ano, ele aparece com Ginger Rogers em "Voando para o Rio"- o início da parceria Rogers-Astaire. Após os filmes com Ginger durante a década de 30 que se tornaram os mais lucrativos do estúdio RKO até então, alguns fracassos ou sucessos mais tímidos- que não cobriam os custos de produção- fizeram Fred abandonar o estúdio que lançou sua carreira cinematográfica e começar a trabalhar como freelance, o que também foi o fim de sua parceria Rogers (que teve uma volta na produção da MGM "Ciúme, sinal de amor" em 1949, o único filme em cores estrelado pela dupla). O que seguiu à decisão de Astaire foi duas décadas de muitos filmes onde o ator e dançarino impressionava o público com o seu talento e classe. Nas décadas de 60 e 70, Fred começa a aparecer em filmes e programas de TV em que não dançava e chegou a ser indicado a um Oscar em 1974 por "Inferno na Torre". Fred morreu em 1987, aos 88 anos, Gene Kelly, Michael Jackson, George Balanchine, Jerome Robbins (que coreografou um ballet em sua homenagem), Rudolf Nureyev, Mikhail Baryshnikov e Madhuri Dixit são alguns nomes que nomearam Astaire como fonte de inspiração. Hoje você pode se deleitar com horas e horas de dança de Fred Astaire em seus filmes e em vídeos na internet.



Fred e sua irmã, Adele, em 1906, quando ela tinha dez anos e ele, seis.

Gene Kelly


  Gene Kelly, com certeza, não se imaginava como um ator de cinema quando era mais jovem; ele começou a dançar na adolescência e continuou quando entrou na universidade para estudar jornalismo, depois mudando para economia e direito, até perceber que a dança- que lhe dava uma renda extra- era o que queria fazer. Kelly ensinava dança e conseguiu abrir uma acadêmia de dança junto de sua família. Desencantado com o ensino e buscando oportunidades como coreógrafo, Kelly se mudou para Nova York. Ele não encontrou sucesso de imediato, ainda tendo que voltar para a sua Pittsburgh natal antes de se destacar na Broadway coreografando e se apresentando; ofertas de Hollywood vieram e o dançarino/coreógrafo, apesar de hesitante em deixar Nova York, assinou um contrato com o produtor David O. Selznick, que logo depois o vendeu para a MGM. Ele estreou em um musical com Judy Garland em 1942, "For Me and My Gal", e continuou aparecendo em vários musicais durante a década de 40, atuando ao lado de Lucille Ball, Rita Hayworth e Frank Sinatra. Seu grande legado porém seria deixado no início na década de 50: com "Sinfonia em Paris", em 1951, e "Cantando na Chuva" em 1952. O segundo, que ele também dirigiu e coreografou, e por qual provavelmente seja mais reconhecido devido ao famoso número da música "Singin' in the Rain", além de "Moses Supposes" junto a Donald O'Connor e "Broadway Melody" com Cyd Charisse.  Deve-se exaltar as habilidades de Kelly como coreógrafo, só de olhar para fotos de alguns números criados para os seus filmes já é possível ver a beleza plástica que o ator levava à tela criando e dançando.  


sábado, 30 de setembro de 2017

Atrizes que foram torturadas por diretores


  Muitos fãs de cinema sabem que existem umas histórias bem loucas sobre o que acontece por trás das câmeras. Brigas, casos amorosos, diretores loucos que fazem a equipe trabalhar exaustivamente, muitos meses de reclusão dos conhecidos em alguma locação estranha e distante, orçamento acabando antes dos fim das filmagens, improvisos, equipe protestando contra o diretor ou estrela do filme, acidentes, gravidezes sendo escondidas...Fazer um filme não é fácil. Sendo um ambiente de trabalho pouco ortodoxo, situações abusivas podem acontecer, principalmente com atrizes, que como muitas mulheres, não são levadas à sério no seu trabalho e se tornam mais facilmente vítimas de comportamentos abusivos. Combinado a isso, alguns diretores acreditam que vão conseguir boas atuações de seus atores se os colocarem em situações extremamente estressantes. Assim, muitas atrizes sofreram para sobreviver a um período de gravações ou viveram um pesadelo enquanto participavam de um filme.

Shelley Duvall e Stanley Kubrick



  Essa deve ser uma das histórias mais contadas dos horrores que uma atriz sofreu nas mãos de um diretor. Shelley Duvall foi escalada para viver Wendy Torrent na adaptação de Stanley Kubrick do livro "O Iluminado" (1980) de Stephen King, o filme se tornaria um clássico do gênero de terror e um xodó dos fãs, que cultuam o filme até hoje. O rosto aterrorizado de Duvall que se vê no filme custou muito à atriz. As filmagens de "O Iluminado" duraram 13 meses e aconteceram na Inglaterra, onde Shelley não tinha nenhum parente ou amigo. Kubrick instruiu a equipe a não falar com Shelley, a famosa cena em que ela segura um taco de baseball enquanto é confrontada por Jack Nicholson teve o número recorde de 127 tomadas, como resultado, as lágrimas dela nessa cena são reais. Como sua personagem passa grande parte do filme fugindo aterrorizada do seu marido, Duvall revelou que chegou a chorar por 12 horas, ela precisava beber várias garrafas de água para se manter hidratada.
  Além de que Kubrick nunca elogiou o seu trabalho e dizia a ela que ela estava desperdiçando o tempo de toda a equipe; em um documentário feito por Vivian Kubrick, filha do diretor, sobre as filmagens, o diretor aparece lhe dizendo: "Não simpatize com Shelley." A atriz, no entanto, não aceitou tudo calada e entrou em discussões com o diretor, além de ter mostrado a ele um tufo do seu cabelo que havia caído devido ao estresse com o filme. Se tudo isso já não faz a experiência de Shelley parecer ter sido infernal, ainda exite o rumor de que na filmagem da cena em que o personagem de Jack Nicholson abre um buraco na porta com um machado, Shelley não sabia o que estava acontecendo e ficou muito assustada, sendo a sua fala durante essa cena- "Jack, por favor!"-um pedido da própria atriz para que o ator parasse. O próprio Jack Nicholson disse que achou ótimo trabalhar com Kubrick, mas que ele era um "diretor diferente" com Shelley, e sobre o trabalho da atriz, ele disse ter sido o mais difícil que ele já viu um ator ou atriz fazer. Outro detalhe interessante é que Stephen King não gosta nem um pouco do filme e uma das razões é o retrato da personagem, Wendy; ele diz que ela é uma das personagens mais misóginas feitas em um filme, porque "ela só está ali para gritar e ser estúpida e essa não foi a mulher sobre a qual eu escrevi."
  Apesar de tudo, Duvall falou que mesmo a experiência tendo sido "quase insuportável", toda a gritaria e choro também funcionavam como uma terapia e tinha um efeito calmante no final. Pelo menos ela conseguiu enxergar algo de bom nisso tudo; apesar da notoriedade do filme, a atriz também reclamou sobre o trabalho dela não ter sido reconhecido na época da estreia do filme; "As críticas eram todas sobre Kubrick, era como se eu nem estivesse lá."

Faye Dunaway e Roman Polanski


  Durante as gravações de "Chinatown" (1974), a atriz principal, Faye Dunaway, e o diretor do filme, Roman Polanski, tiveram uma relação notoriamente ruim. A atriz, já famosa por "Bonnie e Clyde- Uma rajada de balas"(1967) e o diretor, que havia ganhado atenção por filmes como "O Bebê de Rosemary"(1968) não tiveram nenhuma razão aparente para os seus conflitos, o que se sabe é que Polanski não deu a Dunaway o melhor tratamento- quando perguntado pela atriz sobre quais eram as motivações da sua personagem, o diretor recusou a lhe dar direções dizendo: "Diga as palavras, seu salário é a sua motivação." Em outro momento, quando Polanski achou que o cabelo da atriz estava prejudicando o enquadramento, ele apenas puxou e arrancou a parte do cabelo que estava atrapalhando. Com mais ares de lenda, existe também a história de que Dunaway urinou em uma garrafa e jogou em Polanski após ele não a ter deixado ir ao banheiro durante as gravações. A atriz foi perguntada nos últimos anos sobre a veracidade dessa história e não quis responder. Apesar de tudo, o filme não sofreu com as brigas e se tornou um grande sucesso, sendo aclamado até hoje como um dos melhores filmes do cinema. Coincidentemente, o ator principal desse filme, assim como "O Iluminado" é Jack Nicholson.

Jean Seberg e Otto Preminger


  Uma história menos conhecida é a de Jean Seberg enquanto trabalhava com Otto Preminger. Se atrizes famosas e prestigiadas sofrem maus tratos de diretores, imagine atrizes jovens e inexperientes buscando ganhar reconhecimento. Seberg ficou especialmente vulnerável a Preminger porque ela nunca tinha feito nenhum filme antes de ganhar o muito cobiçado papel de Joana d'Arc no filme do diretor, "Saint Joan", sobre a vida da heroína lançado em 1957. Jean era uma adolescente de 17 anos quando venceu a competição de várias outras atrizes jovens e desconhecidas e foi imediatamente lançada à fama como a menina do meio-oeste americano que estrelaria um filme de Preminger, aparecendo em programas de TV acompanhada do diretor para dar entrevistas logo após o anúncio da sua escalação para o filme. Jean tinha um contrato com Preminger de sete anos para filmes futuros do diretor, com Preminger arcando com todas as despesas dela e ainda pagando um salário de 400 dólares por semana (equivalente a 3.500 dólares hoje) durante o primeiro ano de contrato. Jean estava nas mãos de Preminger e aí que ele começou a aplicar métodos esquisitos à atriz. 
  Preminger controlava a vida de Jean, não deixando-a sair nem para comer, dizendo que ela tinha que ficar no seu quarto de hotel estudando as suas falas. Ele a fazia passar por inúmeras tomadas sem lhe dar as instruções certas, deixando-a confusa ou em lágrimas. O ator John Gielgud, que também trabalhou no filme, disse que Jean não sabia nada sobre atuação em filmes e estava desesperada para aprender, mas ao invés de ensiná-la, Preminger a punia; outro ator do elenco, Richard Widmark relatou: "Todos nós pedimos para ele deixá-la em paz, nada adiantou, talvez fosse um teste de resistência, mas para mim era sadismo." Na cena da execução de Joana d'Arc, houve uma falha nos efeitos pirotécnicos e Jean começou a se queimar, ela gritou- fora de personagem- que estava queimando, a cena continuou e Jean conseguiu se livrar das amarras, em seguida, um dos atores que interpretava um carrasco saiu de personagem para resgatar a atriz. Preminger comentou sobre o ocorrido dizendo que era um acidente que um diretor como ele sonhava em ter e se vangloriou sobre como tudo tinha sido pego pelas câmeras, ele ainda usou a tomada em que Jean se queimou na versão final do filme, que ficou com cicatrizes pelo resto da sua vida por causa das queimaduras, além do trauma emocional. 
  O filme não foi bem recebido e a atuação de Jean recebeu críticas negativas, mas com um consenso dos críticos: ela havia sido mal escalada e mal dirigida. Hoje é possível perceber que o que Preminger viu em Jean foi a possibilidade de controlar uma atriz sem nenhuma experiência e que não sabia que não precisava dizer "sim" sempre. A jornalista Karina Longworth conta essa história e a do filme seguinte que Jean fez com Preminger- "Bonjour Tristesse", cujas filmagens não foram mais fáceis e foi o último filme que Jean fez com o diretor- em seu podcast, "You Must Remember This" . 

Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos e Abdellatif Kechiche



  Uma história mais recente e que ganhou atenção da mídia foi das reclamações das atrizes francesas Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos sobre o diretor Abdellatif Kechiche, que as dirigiu no aclamado "Azul é a cor mais quente" (2013). Quando o filme estreou em Cannes em maio de 2013 e ganhou o prêmio Palma de Ouro- sendo dividido entre o diretor e as duas atrizes principais, um fato inédito- tudo parecia bem, ou nem tanto, logo após o sucesso no festival, Seydoux falou para a imprensa que Kechiche as fez repetir as cenas de sexo (muito explícitas) várias vezes na frente de toda a equipe- é comum diretores só manterem os profissionais mais importantes em uma cena que envolve nudez ou simulação de sexo- durante vários dias; ela chegou a dizer que se sentiu como "uma prostituta". Exarchopoulos confirmou a história de sua colega de elenco dizendo que elas ficavam cansadas após tanto tempo filmando essas cenas, mas confessou que não tinha ficava tão chateada quanto Seydoux e que não tinha esperado por aquilo antes das filmagens. Kechiche respondeu chamando Seydoux de mimada- a atriz vem de família abastada- e tudo pareceu nada mais do que uma briga entre a atriz e o diretor. Porém, é de se observar que forçar duas atrizes heterossexuais a simularem cenas de sexo muito realistas durante várias horas é, no mínimo, insensível da parte do diretor, por não se importar com que tipo de ambiente ele está criando para atrizes das quais ele está exigindo muito; mostra também que ele não mediu distâncias- e não se importou com o bem estar de suas atrizes- para obter o resultado que desejava. Uma experiência como esta também pode ser vista como humilhante a abusiva como parece ter sido a forma que Léa Seydoux encarou. Além disse, antes de revelar suas queixas, a atriz chegou às lágrimas em entrevista coletiva durante o Festival de Cannes quando falava sobre as dificuldades de filmar as cenas explícitas do filme. 
  É triste ver que, às vezes, grandes atrizes como Seydoux, Duvall, Dunaway e Seberg passaram por momentos angustiantes nas mãos de diretores autoritários e insensíveis para entregar atuações que nós admiraríamos depois; infelizmente, muitas mulheres ainda sofrem com homens que se dão a liberdade de tratá-las como bem entendem em seus ambientes de trabalho e acabam vivendo com muita hostilidade nos lugares onde elas deveriam se sentir o mais livres para serem produtivas. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Shakespeare and Co.: A livraria mais famosa do mundo


  A livraria Shakespeare and Company, situada em Paris, é conhecida como a livraria mais famosa do mundo e é, pelo menos, uma delas. Fotos desta livraria podem ser vistas circulando pelas páginas do Pinterest e do Tumblr; mas além da sua fofura parisiense, ela carrega história e ainda se diferencia dos outros estabelecimentos.
  A história começa no ano de 1919, quando a americana Sylvia Beach, morando em Paris, decidiu abrir uma livraria, que também emprestava livros, para ser um centro da literatura anglo-saxônica (na época no endereço 8 rue Dupuytren, ela se mudaria após para 12 rue de l'Odéon no 6º arrondissement, onde a loja ficou famosa). Ela se tornou um ponto de encontro de escritores, então desconhecidos, que se tornariam muito celebres, como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Ezra Pound e Gertrude Stein- os escritores da "Geração Perdida". Beach incentivou muitos destes escritores, alguns que passavam por dificuldades na época; ela vendeu as primeiras cópias do primeiro livro de Hemingway, "Three stories and ten poems"(três histórias e dez poemas), e publicou o clássico "Ulisses" de James Joyce. A loja também é descrita no livro "Paris é uma festa" de Hemingway e vendia o livro "O amante de Lady Chatterley" de D.H. Lawrence, que havia sido banido nos Estados Unidos e no Reino Unido. 





"Eu gostaria de te mostrar quando você está só ou na escuridão a incrível luz do seu ser."

  Beach foi obrigada a fechar a livraria durante a Segunda Guerra Mundial, dizem os boatos que foi porque a vendedora de livros se recusou a vender um exemplar de um livro de James Joyce para um oficial alemão; ela nunca mais a reabriu. A história da Shakespeare and Co. continua, então, graças a uma livraria aberta por outro expatriado americano em Paris, George Whitman, em 1951. Localizada na 37 rue Bûcherie, bem de frente à Catedral de Notre Dame, ela se chamava "Le Mistral". Repetindo a história da livraria de Sylvia Beach, a loja logo passou a ser frequentada pelos jovens escritores do movimento Beat: os americanos Allen Ginsberg e William S. Burroughs, além de outros nomes como Julio Cortázar, Anaïs Nin, James Baldwin e Bertolt Brecht. Whitman fez amizade com Sylvia Beach e a admirava profundamente, ela, então, o deu os direitos do nome Shakespeare and Company e no ano de 1964, após a morte de Beach e no aniversário de 400 anos de William Shakespeare, a loja foi renomeada como Shakespeare and Company, existindo até hoje no mesmo endereço. No local da loja original funciona uma loja de roupas, mas há uma placa assinalando que lá foi o lugar onde Beach publicou "Ulisses".

                  "Em 1922, neste local, a srta. Sylvia Beach publicou "Ulisses" de James Joyce.

                                                                       Loja original.

  George Whitman descrevia sua livraria como "utopia socialista disfarçada de livraria" e chamava o nome da loja de "romance em três palavras". Atualmente há muitas razões para visitar- ou só admirar- a Shakespeare and Co., ela ainda possui um grande acervo, com livros raros, e tem sido uma parceira de escritores e artistas. Entre as várias estantes de livro existem pequenas camas, onde qualquer um pode dormir sem pagar, em troca de trabalhar na livraria por duas horas ao dia, ler um livro em um dia e escrever uma autobiografia de uma folha no final da sua estadia. Estima-se que 30.000 pessoas já tenham morado na livraria e algumas "autobiografias" conservadas chegam a ter 50 anos; logo após a entrada existe uma frase pintada em uma das paredes que diz: "Não seja inóspito com estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados."   




  Whitman faleceu em 2011 e sua filha, Sylvia Beach Whitman, é a dona da livraria atualmente e faz um trabalho admirável para fazer a Shakespeare and Co. ainda ser especial e continuar seu legado. A livraria é responsável por muitos eventos culturais, dando destaque a vários artistas, e já publicou muitos livros, inclusive sobre a história da livraria. Beach Whitman criou o festival literário FestivalandCo, no qual autores contemporâneos conhecidos, como a autora de "Persepólis" Marjane Satrapi, já participaram e nos últimos anos a loja apareceu nos filmes "Antes do Pôr do Sol" de Richard Linklater e "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen. Ao visitar o site da loja (também é possível comprar livros virtualmente), você pode encontrar um podcast transmitindo os eventos que acontecem, assinar o newsletter ou ler o conteúdo do site e do blog e assim descobrir tudo o que acontece na livraria. A Shakespeare and Co. também tem uma página no Facebook e contas no Tumblr e no Instagram.

              Cenas de "Antes do Pôr do Sol" e "Meia-Noite em Paris" com a Shakespeare and Co.

  Não posso esconder que tive o enorme prazer de visitar a loja, o ambiente é super acolhedor (dá para entender porque alguém gostaria de dormir lá), há sempre pequenas coisas especiais pela loja- como um piano com uma placa incentivando os visitantes a tocá-lo, uma maquina de escrever que pode ser utilizada, um gato em uma das janelas e várias cadeiras ou pequenos sofás estilosos. Você também pode ter seu livro comprado na loja carimbado com o selo da marca; eu e minha mãe compramos "Vanity Fair's Proust Questionnaire" e "Artists, writers, thinkers, dreamers" de James Gulliver Hancock, ambas pedimos para que eles fossem carimbados. Poderia ser só mais uma livraria antiga, mas é um lugar com uma história belíssima de pessoas que se dedicaram às artes e à literatura, que teve a sorte de ter estado no caminho de tantos escritores geniais, onde vários artistas podem ir e que defende valores de sonhos e amor como pouquíssimos lugares que se possa encontrar (considerando que muitas pessoas que passaram por lá viraram heróis da literatura, talvez não seja tão absurdo acreditar em sonhos lá). É simplesmente mágico e como Henry Miller disse, é "um paraíso dos livros."





Shakespeare and Co. à noite, aparentemente o melhor horário para visitá-la, ela fica aberta até as 23h, uma raridade na França.



Bolsa que pode ser comprada como brinde.

Algumas fotos foram tiradas deste blog.