domingo, 13 de dezembro de 2015

"...E o Vento Levou"


  "...E o vento levou" é o meu filme predileto de todos os tempos. É uma escolha difícil de fazer para qualquer cinéfilo, mas eu resumi as razões desta escolha em dois critérios: a qualidade do filme e o que ele significa para mim, apesar do segundo critério ser altamente pessoal, eu acho que este filme tem o potencial de ser significativo para qualquer pessoa que tenha a coragem de passar quase quatro horas o assistindo o assista.
  Para começar, é um grande filme, não só em duração, mas em produção, temática e influência na história do cinema. Uma super produção para a época, que se tornou a maior bilheteria de todos os tempos até então ( e que em valores atuais continuaria sendo a maior bilheteria hoje, considerando que os 400 milhões de dólares que o filme arrecadou na época equivaleriam a 6,832 bilhões de dólares atuais, muito mais do que a maior bilheteria atual, de Avatar, com seus 2,78 bilhões de dólares arrecadados) valores inimaginavéis para época, assim como a quantidade de atrizes testadas para o papel de Scarlett O'Hara, 1.400, que acabou indo para Vivien Leigh e o número de figurantes usados, 2.400, quantidade que nem existia no Sindicato de Atores da época,
  Deixando os números de lado, o filme foi feito em 1939. É a adaptação de um livro escrito por Margareth Mitchell - que lhe rendeu um prêmio Pullitzer - e foi dirigido por Victor Fleming. Ele conta a história de Scarlett O'Hara (Vivien Leigh), uma patricinha filha de fazendeiros na Georgia, estado no sul dos Estados Unidos em meados do século XIX (ou seja, prestes a Guerra Civil americana, que é representada no filme) que se apaixona por Ashley Wilkes (Leslie Howard). Este, porém, se casa com sua prima, Melanie Hamilton (Olivia De Havilland), iniciando um triângulo amoroso que dura o filme inteiro, sendo ainda completado por Rhett Butler (Clark Gable) que se apaixona por Scarlett (tornando um quadrado amoroso?) Os dramas pessoais desses personagens são interrompidos pela chegada da Guerra Civil, que afeta a vida de todos (evidentemente).
  Uma das coisas que eu mais gosto do filme é o fato de ser um épico, gênero do qual não são mais feitas muitas produções. É um filme muito longo que acompanha vidas inteiras de seus personagens, tornando a história muito completa, sendo marcante a transformação sofrida por Scarlett: de uma moça privilegiada a uma mulher passando fome durante a guerra, até no final se tornar rica novamente. O relacionamento de Scarlett e Rhett também passa por uma evolução marcante, sendo como um ensaio sobre amor, relacionamento e tempo.
  Os exageros do filme também não são à toa. O épico é de uma grandeza que continua a impressionar mesmo após 75 anos e depois de muitas mudanças tecnológicas na sociedade e na forma como os filmes são feitos. As cenas grandiosas, como o incêndio na escapada de Scarlett de Atlanta e a cena dos soldados feridos são impressionantes, além dos vestidos volumosos que se tornaram marca da moda de "...E o Vento Levou".
                         


  Outra característica interessantíssima a respeito do filme é a personalidade marcante de Scarlett. Eu gosto de pensar que ela é uma típica vilã de novela sendo a personagem principal de sua própria história. Ela divide opiniões entre os espectadores por ter furado o olho se casado com o pretende da própria irmã para conseguir dinheiro para pagar os impostos sobre a sua fazenda. É manipuladora e não faz questão de ter a amizade das outras personagens femininas da história. Tudo me faz concluir que é uma personagem cheia de defeitos, bem diferente de idealizações românticas e que, mesmo sem gostar dela, o espectador tem que admitir e respeitar a sua força para superar adversidades. O fato dela passar o filme inteiro (e a sua vida inteira) apaixonada por um homem casado também me faz perdoar um pouco as atitudes dela (só um pouco).
  O filme também tem controvérsias - o que é de se imaginar tendo sido feito na década de trinta e se passando durante a Guerra Civil no sul dos Estados Unidos. A película é frequentemente acusada de ser racista pela forma como os personagens negros, que na trama são escravos, são retratados. Ano passado, foi sugerido que o filme fosse banido pelo racismo e por retratar os confederados (os que durante a guerra ficaram do lado da escravidão) como bons e os "yankees" ( quem ficou contra a escravidão, que eram da região norte) como os inimigos. Eu considero que, para apreciar obras tão antigas, sempre se deve entender o contexto em que foi feita. Quase desisti de escrever este texto quando pesquisei "...E o Vento Levou" e racismo no google até me deparar com um texto que me pareceu ter uma visão muito sensata: negar o filme por ele nos lembrar da escravidão não resolve nada e não nos ajuda a superar o racismo. Também vale lembrar que atuação da atriz Hattie McDaniels como Mammy rendeu o primeiro prêmio Óscar a uma pessoa negra.
  
A bitch face da Scarlett.

A atriz Hattie McDaniels no papel de Mammy.

  Então, o filme retrata amores não correspondidos, superação, perdas pessoais, relacionamentos e basicamente a passagem do tempo nas vidas de uma geração inteira, tendo tudo para que quem o assiste se identifique com seus personagens e sendo envolto de glamour antigo hollywoodiano atualmente tão resgatado pela cultura pop. Um verdadeiro clássico imortal.


  
  
  

  

domingo, 29 de novembro de 2015

Preconceito cinematográfico


  Ano passado, mais ou menos nesta mesma época, saiu uma lista dos atores mais lucrativos naquele ano. Claro que todos os atores da lista estavam envolvidos em algum blockbuster, Jennifer Lawrence estava no topo da lista por causa de "Jogos Vorazes - A Esperança, parte I" e "X-Men - Dias de um Futuro Esquecido" lançados no ano passado, seguida por Scarlett Johansson devido a "Capitão América - Soldado Invernal" e "Lucy" e a lista ainda tinha Chris Pratt por "Guardiões da Galáxia" e vários atores envolvidos em alguns dos maiores lançamentos do ano. O que me chateou foi ler nos comentários deste link que "o mal gosto é universal", "não entende como esse(a) fulano(a) faz sucesso", já considerando todos os filmes e seus atores mencionados na lista ruins. É claro que alguns filmes arrecadam bilhões e bilhões de dólares e são ruins, porém, o que é irônico é que a maioria dos filmes desta lista eram bons, "Guardiões da Galáxia" é um filme excelente! Assim como "X-Men - Dias de um Futuro Esquecido", o terceiro filme de "Jogos Vorazes" e o segundo capítulo de "Capitão América" (apesar de eu o achar um herói chatíssimo, o segundo filme da franquia está longe de ser um filme ruim).
  Este é só um exemplo da forma elitista que algumas pessoas veem o cinema, muitas pessoas só consideram arte as obras de Fellini, Truffaut, Bergman, etc..Ou os filmes independentes, ou os que são indicados ao Óscar. Assim que veem um filme sobre super heróis ou baseado em um livro infanto-juvenil de sucesso já acham que a história é idiota, os atores são ruins e as pessoas só os fazem pelo dinheiro. Tem até um nome para eles (ou ausência de um nome): eles não são "filmes sérios".
  Esta expressão "filme sério" é uma das mais idiotas que poderia existir. Para começar, os "filmes sérios" são do gênero drama, uma comédia ou um filme de ação não são "filmes sérios". Se você rir e se divertir, então não está vendo um "filme sério". É uma noção muito antiquada, lembrando a forma como os gregos valorizavam a tragédia em detrimento da comédia, para eles a tragédia "enobrece" e por essa razão a comédia sempre era apresentada antes das tragédias, como um "show de abertura". 
  Esta noção não é exclusiva do público, as próprias pessoas que trabalham com cinema muitas vezes expõe essa visão, como o diretor Alejandro G. Iñárritu que por meio do seu filme "Birdman" e em declarações se mostra muito crítico aos filmes de super herói, separando-os da "verdadeira arte". Em resposta, o diretor de "Guardiões da Galáxia" James Gunn escreveu um post no facebook dizendo:  " O que me incomoda um pouco é que muitas pessoas assumam que porque você faz filmes grandes, você coloca menos amor, carinho e atenção neles do que quem faz filmes independentes ou os filmes que são considerados mais sérios por Hollywood." Para mim está é uma ótima argumentação que diz que os filmes blockbuster tem o mesmo potencial de serem bons e são feitos com o mesmo cuidado e seriedade do que os "filmes sérios".
  Além de tudo, e o que eu acho que seja o melhor argumento para esta discussão é que você deve valorizar um filme pelo que ele propõe, não adianta querer de um filme de super herói a profundidade dos personagens dos filmes de Bergman quando o forte deles serão as cenas de ação e o carisma de seus personagens. O que os filmes de ação e aventura oferecem que os diferenciam dos outros gêneros é um universo de criatividade que envolve seus espectadores, fazendo-nos sonhar sobre Hogwarts, a Terra Média e como seria ter super poderes.

"The Knick"


  "The Knick" é uma série do canal pago americano Cinemax transmitida no Brasil pelo canal pago Max, criada por Steven Soderbergh. A série narra o cotidiano do hospital Knickerbocker em Nova York no começo do século XX. O personagem principal interpretado por Clive Owen em ótima atuação, Dr. John Thackery, é um cirurgião brilhante que sempre contribui com os conhecimentos sobre medicina da época com descobertas e inovações, porém, é viciado em cocaína e ópio. Após o suicídio do diretor de cirurgia do hospital, Thackery é efetivado ao cargo e a diretoria do hospital força a contratação do cirurgião Algernon Edwards (Andre Holland) como vice-diretor de cirurgia, um médico extremamente qualificado mas que sofre discriminação racial por ser negro.
  A série ainda não tem um grande público no Brasil, mas é muito boa, as cenas em que os personagens executam cirurgias são incríveis, o enredo interessantíssimo apresentando as diferenças da época para os dias de hoje (os atrasos da medicina, o fato de que cocaína era usada como anestésico e heroína usado no tratamento de dependentes químicos (what?! (você leu certo))). Além de tudo, conta com ótimas atuações de Clive Owen, Andre Holland e Eve Hewson, que interpreta uma jovem enfermeira e na vida real é filha de Bono Vox! E uma parte técnica incrível, figurinos, cenários e fotografias maravilhosos, como toda produção de época que se preze.


  Outros personagens importantes para a história são os administradores do hospital, que procuram atender uma clientela rica e tentam manter a qualidade do hospital, é muito interessante de se ver questões de conflitos raciais e ética médica inseridas na história, quando Edwards chega no hospital composto por médicos e pacientes brancos, ele abre uma clínica clandestina no porão do hospital para atender pacientes negros e também para poder exercer a profissão de médico, já que não era bem aceito pelos pacientes e os outros médicos do hospital. No sétimo episódio da primeira temporada, as tensões raciais chegam ao seu ápice quando a morte de um policial branco em uma briga com um negro gera inúmeros ataques a negros que ao serem admitidos no knick geram um motim ao hospital. 

 
Dr. Algernon Edwards interpretado por Andre Holland.

Herman Barrow, interpretado por Jeremy Bobb, administrador do hospital, e Cornelia Robertson, interpretada por Juliet Rylance, diretora de bem-estar social do hospital.
  
  Quanto a ética médica, é de se supor que na época em que a série se passa não existia um consenso sobre o que era certo ou errado para um médico fazer (apesar de algumas escolhas tomadas pelos médicos da série serem obviamente erradas) e assim testes eram feitos em pacientes e cadáveres eram usados para experimentos científicos sem autorização dos familiares (é até uma espécie de mercado negro na série, a venda de cadáveres), inclusive um desses testes em pacientes resulta na morte do mesmo. Dentro das atividades convencionais para a época, os métodos são interessantíssimos de se observar, quando uma paciente procura uma cirurgia para reconstituir seu nariz o procedimento requer que seu braço fique atrelado ao seu rosto, já que a pele usada para o novo nariz vem do braço, a elaboração do rosto da atriz sem o nariz por CGI (imagem gerada por computador) também é muito bem feita, ficando bem crível. 




   Então, está produção ainda sub reconhecida já tem vários motivos para merecer a atenção dos fãs das séries de TV, por ser uma série médica e de época gerando um enredo original que acompanhado de uma produção feita com esmero a torna uma série imperdível! Curiosidade: os primeiros episódios da primeira e da segunda temporadas estão disponíveis com legenda e na íntegra no canal do Max no youtube. É o canal do link abaixo.