sábado, 30 de setembro de 2017

Atrizes que foram torturadas por diretores


  Muitos fãs de cinema sabem que existem umas histórias bem loucas sobre o que acontece por trás das câmeras. Brigas, casos amorosos, diretores loucos que fazem a equipe trabalhar exaustivamente, muitos meses de reclusão dos conhecidos em alguma locação estranha e distante, orçamento acabando antes dos fim das filmagens, improvisos, equipe protestando contra o diretor ou estrela do filme, acidentes, gravidezes sendo escondidas...Fazer um filme não é fácil. Sendo um ambiente de trabalho pouco ortodoxo, situações abusivas podem acontecer, principalmente com atrizes, que como muitas mulheres, não são levadas à sério no seu trabalho e se tornam mais facilmente vítimas de comportamentos abusivos. Combinado a isso, alguns diretores acreditam que vão conseguir boas atuações de seus atores se os colocarem em situações extremamente estressantes. Assim, muitas atrizes sofreram para sobreviver a um período de gravações ou viveram um pesadelo enquanto participavam de um filme.

Shelley Duvall e Stanley Kubrick



  Essa deve ser uma das histórias mais contadas dos horrores que uma atriz sofreu nas mãos de um diretor. Shelley Duvall foi escalada para viver Wendy Torrent na adaptação de Stanley Kubrick do livro "O Iluminado" (1980) de Stephen King, o filme se tornaria um clássico do gênero de terror e um xodó dos fãs, que cultuam o filme até hoje. O rosto aterrorizado de Duvall que se vê no filme custou muito à atriz. As filmagens de "O Iluminado" duraram 13 meses e aconteceram na Inglaterra, onde Shelley não tinha nenhum parente ou amigo. Kubrick instruiu a equipe a não falar com Shelley, a famosa cena em que ela segura um taco de baseball enquanto é confrontada por Jack Nicholson teve o número recorde de 127 tomadas, como resultado, as lágrimas dela nessa cena são reais. Como sua personagem passa grande parte do filme fugindo aterrorizada do seu marido, Duvall revelou que chegou a chorar por 12 horas, ela precisava beber várias garrafas de água para se manter hidratada.
  Além de que Kubrick nunca elogiou o seu trabalho e dizia a ela que ela estava desperdiçando o tempo de toda a equipe; em um documentário feito por Vivian Kubrick, filha do diretor, sobre as filmagens, o diretor aparece lhe dizendo: "Não simpatize com Shelley." A atriz, no entanto, não aceitou tudo calada e entrou em discussões com o diretor, além de ter mostrado a ele um tufo do seu cabelo que havia caído devido ao estresse com o filme. Se tudo isso já não faz a experiência de Shelley parecer ter sido infernal, ainda exite o rumor de que na filmagem da cena em que o personagem de Jack Nicholson abre um buraco na porta com um machado, Shelley não sabia o que estava acontecendo e ficou muito assustada, sendo a sua fala durante essa cena- "Jack, por favor!"-um pedido da própria atriz para que o ator parasse. O próprio Jack Nicholson disse que achou ótimo trabalhar com Kubrick, mas que ele era um "diretor diferente" com Shelley, e sobre o trabalho da atriz, ele disse ter sido o mais difícil que ele já viu um ator ou atriz fazer. Outro detalhe interessante é que Stephen King não gosta nem um pouco do filme e uma das razões é o retrato da personagem, Wendy; ele diz que ela é uma das personagens mais misóginas feitas em um filme, porque "ela só está ali para gritar e ser estúpida e essa não foi a mulher sobre a qual eu escrevi."
  Apesar de tudo, Duvall falou que mesmo a experiência tendo sido "quase insuportável", toda a gritaria e choro também funcionavam como uma terapia e tinha um efeito calmante no final. Pelo menos ela conseguiu enxergar algo de bom nisso tudo; apesar da notoriedade do filme, a atriz também reclamou sobre o trabalho dela não ter sido reconhecido na época da estreia do filme; "As críticas eram todas sobre Kubrick, era como se eu nem estivesse lá."

Faye Dunaway e Roman Polanski


  Durante as gravações de "Chinatown" (1974), a atriz principal, Faye Dunaway, e o diretor do filme, Roman Polanski, tiveram uma relação notoriamente ruim. A atriz, já famosa por "Bonnie e Clyde- Uma rajada de balas"(1967) e o diretor, que havia ganhado atenção por filmes como "O Bebê de Rosemary"(1968) não tiveram nenhuma razão aparente para os seus conflitos, o que se sabe é que Polanski não deu a Dunaway o melhor tratamento- quando perguntado pela atriz sobre quais eram as motivações da sua personagem, o diretor recusou a lhe dar direções dizendo: "Diga as palavras, seu salário é a sua motivação." Em outro momento, quando Polanski achou que o cabelo da atriz estava prejudicando o enquadramento, ele apenas puxou e arrancou a parte do cabelo que estava atrapalhando. Com mais ares de lenda, existe também a história de que Dunaway urinou em uma garrafa e jogou em Polanski após ele não a ter deixado ir ao banheiro durante as gravações. A atriz foi perguntada nos últimos anos sobre a veracidade dessa história e não quis responder. Apesar de tudo, o filme não sofreu com as brigas e se tornou um grande sucesso, sendo aclamado até hoje como um dos melhores filmes do cinema. Coincidentemente, o ator principal desse filme, assim como "O Iluminado" é Jack Nicholson.

Jean Seberg e Otto Preminger


  Uma história menos conhecida é a de Jean Seberg enquanto trabalhava com Otto Preminger. Se atrizes famosas e prestigiadas sofrem maus tratos de diretores, imagine atrizes jovens e inexperientes buscando ganhar reconhecimento. Seberg ficou especialmente vulnerável a Preminger porque ela nunca tinha feito nenhum filme antes de ganhar o muito cobiçado papel de Joana d'Arc no filme do diretor, "Saint Joan", sobre a vida da heroína lançado em 1957. Jean era uma adolescente de 17 anos quando venceu a competição de várias outras atrizes jovens e desconhecidas e foi imediatamente lançada à fama como a menina do meio-oeste americano que estrelaria um filme de Preminger, aparecendo em programas de TV acompanhada do diretor para dar entrevistas logo após o anúncio da sua escalação para o filme. Jean tinha um contrato com Preminger de sete anos para filmes futuros do diretor, com Preminger arcando com todas as despesas dela e ainda pagando um salário de 400 dólares por semana (equivalente a 3.500 dólares hoje) durante o primeiro ano de contrato. Jean estava nas mãos de Preminger e aí que ele começou a aplicar métodos esquisitos à atriz. 
  Preminger controlava a vida de Jean, não deixando-a sair nem para comer, dizendo que ela tinha que ficar no seu quarto de hotel estudando as suas falas. Ele a fazia passar por inúmeras tomadas sem lhe dar as instruções certas, deixando-a confusa ou em lágrimas. O ator John Gielgud, que também trabalhou no filme, disse que Jean não sabia nada sobre atuação em filmes e estava desesperada para aprender, mas ao invés de ensiná-la, Preminger a punia; outro ator do elenco, Richard Widmark relatou: "Todos nós pedimos para ele deixá-la em paz, nada adiantou, talvez fosse um teste de resistência, mas para mim era sadismo." Na cena da execução de Joana d'Arc, houve uma falha nos efeitos pirotécnicos e Jean começou a se queimar, ela gritou- fora de personagem- que estava queimando, a cena continuou e Jean conseguiu se livrar das amarras, em seguida, um dos atores que interpretava um carrasco saiu de personagem para resgatar a atriz. Preminger comentou sobre o ocorrido dizendo que era um acidente que um diretor como ele sonhava em ter e se vangloriou sobre como tudo tinha sido pego pelas câmeras, ele ainda usou a tomada em que Jean se queimou na versão final do filme, que ficou com cicatrizes pelo resto da sua vida por causa das queimaduras, além do trauma emocional. 
  O filme não foi bem recebido e a atuação de Jean recebeu críticas negativas, mas com um consenso dos críticos: ela havia sido mal escalada e mal dirigida. Hoje é possível perceber que o que Preminger viu em Jean foi a possibilidade de controlar uma atriz sem nenhuma experiência e que não sabia que não precisava dizer "sim" sempre. A jornalista Karina Longworth conta essa história e a do filme seguinte que Jean fez com Preminger- "Bonjour Tristesse", cujas filmagens não foram mais fáceis e foi o último filme que Jean fez com o diretor- em seu podcast, "You Must Remember This" . 

Léa Seydoux, Adèle Exarchopoulos e Abdellatif Kechiche



  Uma história mais recente e que ganhou atenção da mídia foi das reclamações das atrizes francesas Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos sobre o diretor Abdellatif Kechiche, que as dirigiu no aclamado "Azul é a cor mais quente" (2013). Quando o filme estreou em Cannes em maio de 2013 e ganhou o prêmio Palma de Ouro- sendo dividido entre o diretor e as duas atrizes principais, um fato inédito- tudo parecia bem, ou nem tanto, logo após o sucesso no festival, Seydoux falou para a imprensa que Kechiche as fez repetir as cenas de sexo (muito explícitas) várias vezes na frente de toda a equipe- é comum diretores só manterem os profissionais mais importantes em uma cena que envolve nudez ou simulação de sexo- durante vários dias; ela chegou a dizer que se sentiu como "uma prostituta". Exarchopoulos confirmou a história de sua colega de elenco dizendo que elas ficavam cansadas após tanto tempo filmando essas cenas, mas confessou que não tinha ficava tão chateada quanto Seydoux e que não tinha esperado por aquilo antes das filmagens. Kechiche respondeu chamando Seydoux de mimada- a atriz vem de família abastada- e tudo pareceu nada mais do que uma briga entre a atriz e o diretor. Porém, é de se observar que forçar duas atrizes heterossexuais a simularem cenas de sexo muito realistas durante várias horas é, no mínimo, insensível da parte do diretor, por não se importar com que tipo de ambiente ele está criando para atrizes das quais ele está exigindo muito; mostra também que ele não mediu distâncias- e não se importou com o bem estar de suas atrizes- para obter o resultado que desejava. Uma experiência como esta também pode ser vista como humilhante a abusiva como parece ter sido a forma que Léa Seydoux encarou. Além disse, antes de revelar suas queixas, a atriz chegou às lágrimas em entrevista coletiva durante o Festival de Cannes quando falava sobre as dificuldades de filmar as cenas explícitas do filme. 
  É triste ver que, às vezes, grandes atrizes como Seydoux, Duvall, Dunaway e Seberg passaram por momentos angustiantes nas mãos de diretores autoritários e insensíveis para entregar atuações que nós admiraríamos depois; infelizmente, muitas mulheres ainda sofrem com homens que se dão a liberdade de tratá-las como bem entendem em seus ambientes de trabalho e acabam vivendo com muita hostilidade nos lugares onde elas deveriam se sentir o mais livres para serem produtivas. 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Shakespeare and Co.: A livraria mais famosa do mundo


  A livraria Shakespeare and Company, situada em Paris, é conhecida como a livraria mais famosa do mundo e é, pelo menos, uma delas. Fotos desta livraria podem ser vistas circulando pelas páginas do Pinterest e do Tumblr; mas além da sua fofura parisiense, ela carrega história e ainda se diferencia dos outros estabelecimentos.
  A história começa no ano de 1919, quando a americana Sylvia Beach, morando em Paris, decidiu abrir uma livraria, que também emprestava livros, para ser um centro da literatura anglo-saxônica (na época no endereço 8 rue Dupuytren, ela se mudaria após para 12 rue de l'Odéon no 6º arrondissement, onde a loja ficou famosa). Ela se tornou um ponto de encontro de escritores, então desconhecidos, que se tornariam muito celebres, como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Ezra Pound e Gertrude Stein- os escritores da "Geração Perdida". Beach incentivou muitos destes escritores, alguns que passavam por dificuldades na época; ela vendeu as primeiras cópias do primeiro livro de Hemingway, "Three stories and ten poems"(três histórias e dez poemas), e publicou o clássico "Ulisses" de James Joyce. A loja também é descrita no livro "Paris é uma festa" de Hemingway e vendia o livro "O amante de Lady Chatterley" de D.H. Lawrence, que havia sido banido nos Estados Unidos e no Reino Unido. 





"Eu gostaria de te mostrar quando você está só ou na escuridão a incrível luz do seu ser."

  Beach foi obrigada a fechar a livraria durante a Segunda Guerra Mundial, dizem os boatos que foi porque a vendedora de livros se recusou a vender um exemplar de um livro de James Joyce para um oficial alemão; ela nunca mais a reabriu. A história da Shakespeare and Co. continua, então, graças a uma livraria aberta por outro expatriado americano em Paris, George Whitman, em 1951. Localizada na 37 rue Bûcherie, bem de frente à Catedral de Notre Dame, ela se chamava "Le Mistral". Repetindo a história da livraria de Sylvia Beach, a loja logo passou a ser frequentada pelos jovens escritores do movimento Beat: os americanos Allen Ginsberg e William S. Burroughs, além de outros nomes como Julio Cortázar, Anaïs Nin, James Baldwin e Bertolt Brecht. Whitman fez amizade com Sylvia Beach e a admirava profundamente, ela, então, o deu os direitos do nome Shakespeare and Company e no ano de 1964, após a morte de Beach e no aniversário de 400 anos de William Shakespeare, a loja foi renomeada como Shakespeare and Company, existindo até hoje no mesmo endereço. No local da loja original funciona uma loja de roupas, mas há uma placa assinalando que lá foi o lugar onde Beach publicou "Ulisses".

                  "Em 1922, neste local, a srta. Sylvia Beach publicou "Ulisses" de James Joyce.

                                                                       Loja original.

  George Whitman descrevia sua livraria como "utopia socialista disfarçada de livraria" e chamava o nome da loja de "romance em três palavras". Atualmente há muitas razões para visitar- ou só admirar- a Shakespeare and Co., ela ainda possui um grande acervo, com livros raros, e tem sido uma parceira de escritores e artistas. Entre as várias estantes de livro existem pequenas camas, onde qualquer um pode dormir sem pagar, em troca de trabalhar na livraria por duas horas ao dia, ler um livro em um dia e escrever uma autobiografia de uma folha no final da sua estadia. Estima-se que 30.000 pessoas já tenham morado na livraria e algumas "autobiografias" conservadas chegam a ter 50 anos; logo após a entrada existe uma frase pintada em uma das paredes que diz: "Não seja inóspito com estranhos, pois eles podem ser anjos disfarçados."   




  Whitman faleceu em 2011 e sua filha, Sylvia Beach Whitman, é a dona da livraria atualmente e faz um trabalho admirável para fazer a Shakespeare and Co. ainda ser especial e continuar seu legado. A livraria é responsável por muitos eventos culturais, dando destaque a vários artistas, e já publicou muitos livros, inclusive sobre a história da livraria. Beach Whitman criou o festival literário FestivalandCo, no qual autores contemporâneos conhecidos, como a autora de "Persepólis" Marjane Satrapi, já participaram e nos últimos anos a loja apareceu nos filmes "Antes do Pôr do Sol" de Richard Linklater e "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen. Ao visitar o site da loja (também é possível comprar livros virtualmente), você pode encontrar um podcast transmitindo os eventos que acontecem, assinar o newsletter ou ler o conteúdo do site e do blog e assim descobrir tudo o que acontece na livraria. A Shakespeare and Co. também tem uma página no Facebook e contas no Tumblr e no Instagram.

              Cenas de "Antes do Pôr do Sol" e "Meia-Noite em Paris" com a Shakespeare and Co.

  Não posso esconder que tive o enorme prazer de visitar a loja, o ambiente é super acolhedor (dá para entender porque alguém gostaria de dormir lá), há sempre pequenas coisas especiais pela loja- como um piano com uma placa incentivando os visitantes a tocá-lo, uma maquina de escrever que pode ser utilizada, um gato em uma das janelas e várias cadeiras ou pequenos sofás estilosos. Você também pode ter seu livro comprado na loja carimbado com o selo da marca; eu e minha mãe compramos "Vanity Fair's Proust Questionnaire" e "Artists, writers, thinkers, dreamers" de James Gulliver Hancock, ambas pedimos para que eles fossem carimbados. Poderia ser só mais uma livraria antiga, mas é um lugar com uma história belíssima de pessoas que se dedicaram às artes e à literatura, que teve a sorte de ter estado no caminho de tantos escritores geniais, onde vários artistas podem ir e que defende valores de sonhos e amor como pouquíssimos lugares que se possa encontrar (considerando que muitas pessoas que passaram por lá viraram heróis da literatura, talvez não seja tão absurdo acreditar em sonhos lá). É simplesmente mágico e como Henry Miller disse, é "um paraíso dos livros."





Shakespeare and Co. à noite, aparentemente o melhor horário para visitá-la, ela fica aberta até as 23h, uma raridade na França.



Bolsa que pode ser comprada como brinde.

Algumas fotos foram tiradas deste blog.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

"A Sangue Frio" de Truman Capote


   No dia 16 de novembro de 1959, Truman Capote lia o jornal The New York Times quando uma nota na primeira página sobre o assassinato de um influente fazendeiro e sua família em uma pequena cidade do Kansas chamou sua atenção. Naquele mesmo dia, ele ligou para o editor da revista The New Yorker, William Shawn, dizendo que queria escrever sobre o crime e pegou um trem com a amiga e escritora Harper Lee- aurora de "O Sol é Para Todos"- para Holcomb, Kansas. Capote logo percebeu o potencial de sua história para torna-se um livro e passou os cinco anos seguintes trabalhando no caso.
  O escritor chegou em Holcomb e viu uma cidade atordoada pelos eventos recentes- era uma cidade onde todos se conheciam e gostavam da família Clutter; o pai Herb, um fazendeiro de influência local, sua esposa Bonnie e seus filhos adolescentes Nancy e Kenyon, de 16 e 15 anos. Foi na noite do dia 14 de novembro que os quatro foram mortos em sua própria casa, cada um com um tiro a queima roupa. 
  Capote e Lee estavam presentes quando um mês após, logo depois o ano novo, Richard "Dick" Hickock e Perry Smith foram presos em Las Vegas e levados a Holcomb. O famoso escritor relatou que a cidade ficou em silêncio, sem nenhuma hostilidade, apenas surpresos em ver que os dois responsáveis pelo crime que os chocaram eram apenas pessoas. Capote conheceu os assassinos confessos e viu a história que escreveria- um crime de todos os seus ângulos. 


  "A Sangue Frio" foi publicado da revista "The New Yorker" em quatro partes no ano de 1966 e posteriormente lançado como livro, que tornou rapidamente Capote um dos escritores mais famosos do país e figura desde então como um clássico da literatura americana e do jornalismo literário. Capote dizia na época que havia inventado um gênero- o "romance de não ficção" ou "sem ficção", mas muitos argumentaram então que trabalhos com um estilo parecido já tinham sido feitos antes. A primeira parte se chama "Os Últimos a Vê-los com Vida" e narra o último dia de vida dos membros da família Clutter e o caminho que os assassinos percorriam neste mesmo dia em direção ao lugar onde ocorreria o crime, a segunda se chama "Pessoas desconhecidas", mostrando os eventos ocorridos imediatamente após as mortes e as duas últimas, "Resposta" e "O Canto" concluem a história com a captura dos assassinos, o julgamento, a prisão e a execução de ambos.
  "A Sangue Frio" impressiona pelos detalhes, frutos da investigação intensa de Capote, o que também gerou controvérsias- até onde o que está no livro é real? É perceptível que Capote usa técnicas de romances policiais na sua narração, no entanto, o própria jurava que era tudo factual, uma reportagem jornalística escrita em forma de romance. Outra crítica que foi feita ao livro foi a romantização de um dos assassinos, Perry Smith, de quem Capote ficou próximo durante os anos de trabalho no livro. O que Capote diz é que a história do seu livro mostra dois mundos distintos dentro do mesmo país, o de uma família que vive confortavelmente em uma fazendo do Kansas e o de dois criminosos que tiveram uma vida muito diferente, que se chocam em uma catástrofe. 
  O livro também levantou questionamentos quanto à pena de morte, o próprio Capote se sentiu muito abalado após a execução dos dois criminosos, a qual ele assistiu, algo que ele diz nunca ter esquecido.

Capote e "A Sangue Frio" no cinema


Philip Seymour Hoffman como Truman Capote em "Capote" (2005). 

  Truman Capote e a história de como ele escreveu "A Sangue Frio" foi tema de dois filmes recentes, o mais famoso deles sendo possivelmente "Capote" (2005) do diretor Bennett Miller, que traz Philip Seymour Hoffman no papel do escritor em uma atuação que lhe rendeu um Oscar de Melhor Ator e Clifton Colllins Jr. como Perry Smith, e também posteriormente "Infamous" (2006), dirigido por Douglas McGrath, com Toby Jones no papel principal, Daniel Craig como Smith e Sandra Bullock como Harper Lee. Em 1967, "A Sangue Frio" foi adaptado pelo diretor Richard Brooks, com Robert Blake e Scott Wilson nos papéis de Perry Smith e Richard Hickock respectivamente, filme que também foi bem recebido e teve indicações ao Oscar.

Clifton Collins Jr. (à esquerda) como Perry Smith e Mark Pellegrino (à direita) como Richard Hickock em "Capote" (2005).