sexta-feira, 20 de julho de 2018

Maldito Futebol Clube



"Maldito Futebol Clube" (2009) é ao mesmo uma das únicas cinebiografias e um dos únicos filmes de esporte que eu gosto, e o melhor filme sobre futebol que eu já vi. O filme, dirigido por Tom Hooper antes do sucesso com "O Discurso do Rei" (2010), é baseado no livro de mesmo nome do autor David Peace, narrando a passagem mal-sucedida do técnico Brian Clough pelo Leeds United na década de 70 após seu sucesso com o pequeno clube Derby torná-lo famoso.

Interpretado por Michael Sheen, Clough é um dos técnicos mais famosos da história do futebol inglês, lembrado muitas vezes em associação a Robert Taylor, interpretado no filme por Timothy Spall, seu auxiliar técnico no Derby. Juntos, eles tiraram o Derby das últimas posições da segunda divisão e o levaram ao campeonato da primeira. Mas se separaram quando Clough aceitou o emprego no Leeds.



O livro do qual o filme se baseou não teve apoio da família Clough, que também não cooperou com o filme; alguns eventos do livro são contestados e foram considerados difamatórios, o filme, no entanto, amenizou o tom do livro. 

O filme descreve uma admiração e richa que Clough tinha com Don Revie, seu antecessor no cargo de técnico no Leeds que deixou o clube para dirigir a seleção da Inglaterra. Clough se identificava com Revie por terem nascido na mesma cidade e jogado no mesmo time (não ao mesmo tempo) enquanto jogadores, mas era um forte crítico do estilo violento e desonesto de jogo do Leeds e da liderança de Revie. Tanto que, antes de assumir como técnico no Leeds, disse em entrevista, o que é retratado no filme, que os jogadores do Leeds podiam "jogar suas medalhas no lixo, porque elas não foram conquistadas de maneira justa".



Uma das razões do filme funcionar tão bem é porque ele não quer contar a história de vida do seu personagem desde que ele nasceu, ele faz recortes de dois momentos da longa carreira de Clough: como técnico do Derby e do Leeds, essa escolha normalmente faz filmes sobre pessoas reais serem bons. Apesar do filme perceptivelmente dramatizar a história além dos fatos, a personalidade excêntrica de Clough já rende bons momentos para o filme, como a sua estratégia "Jânio Quadros" de pedir demissão do Derby na esperança de se chamado de volta (assim como Jânio, não deu certo). O filme é cômico na medida certa com boas atuações dos atores principais - Sheen, Spall e ainda Jim Broadbent como o presidente do Derby. Sheen torna Clough multifacetado, apesar de fazer escolhas questionáveis, é possível entender a sua ambição, e respeitá-lo mesmo com as suas atitudes questionáveis.

Assim como alguns outros filmes sobre esportes conseguem empolgar por representar o esporte de forma semelhante a como assistimos ou até mesmo como é visto por quem o pratica, a exemplo da patinação em "Eu, Tonya" (2017), o boxe em "Touro Indomável" (1980) e em "Creed" (2015), "Maldito Futebol Clube" consegue transmitir o nervosismo e o delírio do esporte. Uma cena marcante é quando Clough, ainda no Derby, ganha uma suspensão e fica no vestiário durante o jogo, ele ouve a torcida comemorar um gol e não sabe de qual time foi, só quando o jogo termina e o time aparece com sorrisos que ele descobre o resultado.






sexta-feira, 8 de junho de 2018

Persona e o Surrealismo


  A marca do surrealismo pode ser definida, simplisticamente, como a presença de elementos diversos e muitas vezes inusitados colocados de uma forma que não parece coerente. O filme “Quando Duas Mulheres Pecam” (1966), “Persona” no título original, de Ingmar Bergman, tira influência no movimento surrealista- cujo auge ocorreu 40 antes antes do seu lançamento com filmes como "Um Cão Andaluz", feito por Luís Buñuel em parceria com Salvador Dalí- para contar a história de duas mulheres: Elisabet, uma atriz afetada por uma mudez súbita e Alma, a enfermeira responsável por seus cuidados. Reclusas em uma casa de praia para a recuperação de Elisabet, o isolamento das personagens as torna quase as únicas do filme, o que já contribui para o surrealismo no filme, considerando que o isolamento de personagens no cinema frequentemente traz o desenvolvimento de um estado psicótico nos personagens, como em “O Iluminado” (1980), de Stanley Kubrick, ou o acontecimento de algo extraordinário, fantástico.


"Um Cão Andaluz" (1929)

  No começo do filme, há uma sequência de imagens- uma ovelha sendo morte, a mão de Jesus sendo crucificada e um pênis ereto- que são aparentemente desconexas. A deteriorização do estado de saúde de Elisabet, retratado no começo do filme, também é inusitada; a perda da voz da personagem é apresentada como algo repentino e sem uma explicação médica definida, que ocorre durante uma encenação da tragédia grega “Elektra”, o que é seguido de uma piora para um estado semi-catatônico. O que poderia parecer mais com sintomas médicos se torna algo enigmático na ausência de uma explicação racional.



  Na casa de praia, onde se passe a grande parte do filme, Alma encontra em Elisabet a confidente perfeita. Enquanto a sua saúde evolui, a mudez de Elisabet persiste e sua presença silenciosa permite a Alma a liberdade de revelar seus pensamentos mais íntimos e segredos mais profundas- como a memorável cena em que ela descreve uma orgia de qual participou em uma praia e um aborto que fez. O silêncio de Elisabet é como o de um psicanalista junguiano, que ouve seu paciente sem julgamento. Apesar de confortante, o silêncio de Elisabet passa a angustiar Alma também e a segunda passa a confrontar a primeira, sendo capaz de desvendar os segredos da atriz também.



  A situação culmina para uma quase fusão da personalidade das duas personagens, o que leva a uma das cenas mais famosas do filme e que mais carrega a influência surrealista- quando os rostos de Elisabet e Alma se misturam formando um novo rosto. Dentro da linearidade do filme, essa cena pode surpreender, mas ela representa a conclusão sobre a relação das duas personagens. Ao fim do filme, vemos uma película de filme se queimando, o que junto com a cena do começo do filme onde uma criança vê uma imagem em uma tela e a toca, mostra outros dois elementos surrealistas, que desta vez agem de forma metalinguística refletindo sobre a relevância e insignificância do filme- ao mesmo tempo elevando a sua mensagem e minimizando a obra como apenas ficção.


Junção dos rostos de Alma e Elisabet.

  
Cena de abertura de "Persona", cheia de elementos surrealistas.

  “Persona” é um filme que consegue mostrar a influência que tira do surrealismo, usando-o para auxiliar a narrativa- quase sempre coerente- mas sem deixar de surpreender e instigar o espectador com a criatividade de suas cenas surreais.

 Bibi Andersson, Ingmar Bergman e Liv Ullmann durante as gravações do filme.




domingo, 6 de maio de 2018

Cinema de autor


Jean-Luc Godard (esq.) e François Truffaut (dir.).

  A expressão cinema de autor ou de auteur como foi cunhada pelos franceses no final dos anos 40, mais precisamente pelos críticos André Bazin e Roger Leenhardt, define um cinema feito sob o olhar do seu diretor; a expressão de autor significa uma produção artística controlada por um artista só, então o que diferencia o cinema de autor é a falta de interferência de produtores, singularizando a visão do diretor para o filme. Bazin, que foi uma espécie de padrinho de François Truffaut, influenciou a sua visão de cinema- já que ele obteve sua “educação cinematográfica” com Bazin- e fez com que o trabalho como crítico e depois como cineasta de Truffaut valorizasse o cinema de autor; algo que se expandiu para os outros diretores da mesma geração que frequentavam a Cinémathèque de Henri Langlois em Paris: Jean-Luc Godard, Claude Chabrol, Jacques Rivette, entre outros- e queriam fazer cinema como seus ídolos Alfred Hitchcock e Robert Bresson.
 Quando se fala de cinema de autor e desta geração de diretores, não se pode deixar de falar do ano de 1959 e do Festival de Cannes daquele ano. Durante a década de 50, quando Truffaut e Godard eram críticos da revista Cahiers du cinema, eles criticavam duramente o cinema que estava sendo feito na França e o Festival de Cannes, até Truffaut ter seu filme, “Os incompreendidos” como representante da França no Festival de Cannes de 1959. Com o sucesso do filme no festival, foi alardeado que uma nova era no cinema francês começava, Godard falou sobre ter sido uma vitória para os diretores que queriam fazer o cinema de autor: “Nós vencemos o dia (...) Em ter reconhecido que um filme de Hitchcock, por exemplo, como tão importante quanto um livro de (Louis) Aragon. Autores de cinema, graças a nós, finalmente entraram para a história de arte”. François Truffaut também escreveu em êxtase: “Os filmes de amanhã serão feitos por aventureiros, jovens cineastas vão se expressar na primeira pessoa e nos contar sobre as suas experiências. Os filmes de amanhã não serão feitos por funcionários da câmera, mas por artistas que veem o cinema como uma incrível e empolgante aventura.”


Jean-Pierre Léaud, ator principal de "Os incompreendidos"(1959), no Festival de Cannes de 1959.

  Os anos seguintes realmente cumpriram as promessas de Truffaut e Godard, o cinema francês dos anos 60 conhecido como Nouvelle Vague (nova onda) é um marco do cinema de autor. Vários diretores famosos se inspiraram nesse movimento e construíram suas próprias carreiras como autores de cinema, Martin Scorsese e Quentin Tarantino são dois exemplos. O cinema de autor não ficou nos filmes europeus do passado, diretores atuais como Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Woody Allen, Terrence Malick, Todd Haynes, Pedro Almodóvar e Jim Jarmusch possuem características estéticas e narrativas próprias reconhecidas em todos os seus filmes; não se pode falar de Wes Anderson sem que se lembre imediatamente do colorido dos seus filmes ou de Terrence Malick sem pensar na natureza ou ainda de Tarantino sem pensar na violência e nos personagens vingativos.


"Moonrise Kingdom" (2012), de Wes Anderson.

  Apesar de muito festejados, o cinema de autor também sofre críticas, isso é porque o cinema não é feito por uma só pessoa, sempre é fruto de um trabalho coletivo. Desde antes do termo de autor surgir, o diretor já era considerado a figura mais importante do set de filmagens, mas o que se discute e se aponta atualmente é a importância de outros profissionais de um filme para a inspiração do mesmo. Às vezes, o diretor de fotografia ou ator/atriz principal podem ser os grandes responsáveis pelo estilo de um filme.

  Apesar deste texto ser sobre cinema de autor, é preciso mencionar que já existe a expressão “televisão de autor”, o que se deve a uma nova era que a TV americana tem tido na última década; contando com o apoio de vários profissionais do cinema que estão migrando para as telinhas. A série “The Knick” teve 20 episódios todos dirigidos por Steven Soderbergh,  a recente “The Young Pope” surgiu da mente do diretor italiano Paolo Sorrentino, a minissérie “The Night Manager” foi completamente dirigida por Susanne Bier, “True Detectice” teve sua primeira temporada dirigida toda por Cary Joji Fukunaga e a segunda produzida por ele; “House of Cards” e “Narcos” são produzidas por David Fincher  José Padilha respectivamente e apesar de ambas terem tido apenas alguns episódios dirigidos por estes diretores, a marca deles continua em todo o resto da série.
  O cinema de autor é responsável por produzir verdadeiras obras de arte do cinema e por, em determinado momento, ligar a palavra ao cinema. Apesar da atividade cinematográfica ser essencialmente coletiva, um cineasta é capaz de expor sua visão original do mundo em um filme e guiar sua equipe para atingir a estética e narrativa desejadas e fazê-los trabalharem juntos para atingir o produto final. Como um maestro que faz todos os seus instrumentistas tocarem harmonicamente.